segunda-feira, 25 de julho de 2011

Percepção

Perguntei outro dia para um velho que estava sentado na porta do boteco, qual era a graça de envelhecer ouvindo as mesmas músicas, porque todo santo dia que eu ia tomar meu suposto café da manhã, lá estava ele admirando a vida como se o tempo não existisse e eu morria de inveja daquilo... Lógico. Achei engraçado o jeito que ele engasgava para falar... Parecia que a vida o poupava enquanto eu, da maneira mais grossa possível, cutucava seu descanso. 
Os olhos dele me responderam e eu me senti a pessoa mais tola do mundo. Era como se ele debochasse da minha calça jeans e do meu óculos, ele fazia isso muito bem e eu sequer me sentia provocada. As mãos sujas, o cigarro na orelha em conflito com o cabelo branco e a barba por fazer não significavam nada, até que ele me perguntou se eu sabia o que era percepção. Eu disse que sabia, claro e então ele perguntou se eu sabia o que era imaginação. Afirmei que sabia mais ainda e ele simplesmente riu. Quer dizer, tossiu mais do que riu, de qualquer maneira eu me senti estúpida de novo, pois não sabia o motivo pelo qual aquele velho desgraçado não me levava a sério. Pensei: "esse pessoal de idade tem mania de achar que todo jovem é burro, só pode ser isso".  
Comprei dez pães (sim, no boteco vendia pão) e resolvi ir embora até que ele puxou meu braço, já com o cigarro no canto daquela boca murcha e colocou um guardanapo dobrado na minha mão. Eu o olhei com repulsa e me soltei com direito a caretas, tentando o desprezar o máximo possível enquanto ele, num ritmo muito mais lento e calmo, soltava minha mão com aquele ar de superioridade... Que raiva, meu deus! 
Por um minuto quis jogar o pedaço de papel no chão mas a minha curiosidade pediu para que eu lesse o que havia ali: 


"Você é mais velha do que eu... Não tente interpretar tudo! O que entra pela sua retina não é a mesma coisa que entra pela minha, sua tola".


Bom, fato é que tola eu já estava me sentindo desde o momento que coloquei os pés naquele maldito lugar, mas arrisquei a levar aquilo como um conselho porque... Hum... Eu me sentia velha. 
Na percepção dele (ou na minha, a essa altura já não sei), viver era disputar espaço com o tempo. Vai ver ele tinha ganhado... Ou sei lá, perdido. Vai saber... 

Um comentário:

Nádia C. disse...

viajei nesse conto. Ficaria hiper feliz de ter um comentário seu no meu blog ._. err isso foi patético, eu sei.