segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Café corajoso

A ideia de participar de um sarau me assustava, confesso. Esse negócio de sentar numa mesa e ter que proporcionar alguns minutos de si às pessoas sempre me incomodou de um jeito que a ansiedade levava os dedos à boca, satisfazendo-se com restos de unha. Pois bem, fui... Aceitei o convite. Ok, vamos lá. 
Era um dia lindo! O céu estava ali sob a minha cabeça dizendo que seria magnífica a tarde e que a poesia alheia iria acomodar meu coração como uma almofada, mas infelizmente São Paulo é uma cidade parasita que sobrevive estragando as pessoas. Talvez eu seja exagerada, mas... Nunca consegui voltar pra casa inteira. Jamais. Isso porque havia prometido que iria consumir só água e sol. Nada mais. 
Praça da República, feira, calor e prédios que engoliam o céu. Resisti. Andei para cá, para lá, decorei tudo que havia nas barracas, pensei em visitar o amigo boizinho e esperei. 30 minutos. Aqui entre nós, eu estava na verdade com medo. Medo de ser assaltada, sei lá. São Paulo te proporciona isso. De repente, em um flash, me vi sentada na praça como no dia 16 de abril com aquele rapaz miserável... Rindo, feliz, amando... Tratei de me envolver em fumaça logo na intenção de por os pés na poluída realidade, como se fosse uma antagonista tendo recaídas bondosas. Voltei e decidi descer até a estação... Estava mais fresco e lá dentro, imaginei, não teriam flautas bolivianas me incomodando. Foi por os pés no subsolo que encontrei a senhora judiação... A mesma do texto que leva essa palavra no título. Éramos flores em meio ao caos. Combinamos que seria um dia saudável e garanto-lhes que ser saudável não parte somente de você. 
Encontrei o namorado intrigante (mais quieto do que o costume) e uma amiga maternal dela. De cara foi simpática, mas eu só conseguia ver um ser humano expirando tristeza e angústia. Não que ela fosse assim, só que eu sempre desconfio de pessoas alegres demais... Sempre possuem alguma dor escondida. Enfim...
Fomos à biblioteca Mário de Andrade, sentamos numa mesa qualquer e ficamos ali esperando os outros rapazes chegarem. A amiga maternal despejou várias barras de cereal na mesa, o que de alguma forma me espantou... Lembro que quando era pequena, só as comprava quando sobrava dinheiro. Mas quando sobrava MESMO e do nada vejo ali, aos montes. Estranho. 
Lucy (judiação) me chamou para dar uma volta na biblioteca, quer dizer, para sair daquele silêncio e dar risadas pecaminosas em meio as prateleiras... Éramos do tipo que contávamos um fato ou outro, ríamos absurdamente, derrubávamos um livro no chão e depois fazíamos "shiiiu". Cínicas, tsc tsc.
De volta a mesa, ainda continuávamos nós quatro. Amiga maternal era ansiosa! Não parava quieta... Ia direto na entrada ver se os outros meninos estavam chegando e nada. 


- Ela é bem ansiosa, né?
- Sim, muito...
- Ela fuma?
- Não.
- Pois deveria.


O primeiro a chegar era o psicólogo com transtorno compulsivo. Ele fazia torres com as barrinhas e depois desmanchava. O segundo foi um bem querido, aparentemente, usando um cinto argentino. Ambos eram carecas e usavam óculos. Ambos pareciam humanos demais. Por último chegou o mais interessante... Um cara de cabelos brancos, óculos redondinho e atlético... Pintava retratos com aquarela. Era fascinante! Logo de cara pensei:


- Ele deve ter vivido a mil os anos oitenta...


Começamos a ler. A principio era poesia, mas Lucy decidiu ler um trecho de um filósofo poeta. Algo bem bonito. Até ai tudo bem... Depois rolou uma fábula, depois uma música e finalmente poesia. Aliás, o cara da aquarela declamava como ninguém! A fábula, por exemplo, chegou a ser rejeitada pela minha atenção por causa de um passarinho que insistia em querer passar pela janela fechada, batendo-se toda hora (ele bateu tanto que morreu), mas o cara do cabelo branco... Eu tenho costume de ficar constrangida vendo pessoas encenando ou saindo do plano real pra encarnar outra coisa, mas ele... Eu fiquei vidrada. Eu conseguia encarar os olhos dele, contando a história de uma mulher em três poemas diferentes, unindo-os. O que era mais incrível ainda. Até mesmo o conto do Monteiro Lobato que ele leu, era impactante! Era impossível não prestar atenção e não aplaudir! O namorado quieto leu também... Prestei atenção na escolha dele e relacionei com toda aquela repressão que ele passava. Um fio de silêncio. Perguntaram se eu iria ler e respondi que não... Estava ali apenas para ouvi-los até o momento em que o cara declamou o que já foi dito. Fiquei com vontade e resolvi declamar um poema do Carpinejar (poeta pouco conhecido por aqui, mas muito familiar entre eu, Lucy e as judiações da vida). 
Deu 17h. Eu estava saudável, apesar da fumaça. Estava vendo flores até que recebo uma sms, aliás, um convite para ir a um PUB irlandês. Ué, fui. E fui acompanhada da amiga maternal. No caminho da biblioteca até lá, paramos para ver o Eduardo Dusek cantando "doméstica" (geração dela, respeitei). Eu nunca tinha escutado esse cidadão, mas veja bem... Homens com aparência warholiana chamam a atenção. Fui atrás do palco com a amiga e ficamos assistindo-o de lá. Acabou a música, ele saiu do piano, passou por debaixo da corda e, de maneira cômica, olhou para mim por cima do rayban preto. Era um olhar do tipo esperançoso. Quis sair correndo, sei lá por quê. Paramos para tomar um café e conversamos muito... A vida dela, basicamente, era em torno de uma paixão perdida... De uma carta que chegou depois da morte anunciada. 


- O Copan é lindo, não?
- É sim, mas me assusta um pouco esse negócio dele tampar o céu com as curvas...
- Engraçado. Trabalhei aqui nos anos 70. Os jornalistas se refugiavam naquele café ali! Quer um?
- Quero!
- Mas eu pago, tá bom? Gosto de retribuir para uma pessoa jovem o que a vida me proporcionou...


Tomei o café num gole enquanto ela virava o café com leite para esfriar. Decidimos ir para o ponto de ônibus e então, eis que ela me dá um livro. Se não bastasse o café, agora um livro. Me senti um pouco estranha. Ela explicou que na altura em que a vida dela se encontrava, fazer coleções não era nada benéfico. Comprava um livro, lia e dava para alguém que estivesse no início da biblioteca, como eu. 


- Você tomou o café tão rápido! E estava tão quente! Como consegue?
- Não tem segredo... Eu encosto a xícara na ponta dos lábios e deixo escorrer um pouco pra língua. É só um susto, sabe? Só queimo a língua de leve pra ela ir se acostumando...
- E eu nesses quase 60 anos acabo de descobrir como se toma café com uma moça de 18... Isso dá um conto!
- A gente só toma coragem depois que queima a língua com café, é basicamente isso.


Dito e feito. Ela me deixou na esquina do tal PUB enquanto o casal de amigos acenava e fazia gestos do tipo "vem logo!". Perguntou se eu não queria ir ao Havana tomar mais um café, insistiu dizendo para eu avisar ao casal que iria demorar mais alguns minutinhos. Ela tinha sede de ensinar! De compartilhar, mais precisamente. Tive que recusar, afinal de contas, os dois estavam lá quase terminando o cigarro e a minha consciência alertava que o dia poderia tornar-se podre para variar. 
Me despedi da amiga maternal e atravessei a rua. Cheguei sorridente, vendo flores, saudável e feliz. Louie já estava feliz um pouco a mais do que eu, se é que você me entende. Gosto de vê-lo assim. Entramos no tal PUB e mais uma vez afirmei que não iria beber nem nada. Ele insistiu com o quinto chopp na mão enquanto eu negava solicitando no balcão apenas uma coca-cola e um hot dog monstruoso. Estava com fome ué. Não vivo só de barrinhas e fumaça. A noite se desenrolou assim... Eu conversando com o casal, ouvindo suas histórias urbanas, cheias de aventuras e sendo saudável. Inclusive, fui embora embora num horário saudável. Não era nem 20h. E eu sequer passei pela baixa Augusta de tanto temor que eu sentia. Me despedi deles, entrei na Paulista e resolvi ir caminhando até o MASP. Por que não pegar o metrô lá? Fui. Sabe-se lá diabos o que aconteceu, só sei que comecei a passar mal. Minha alma desobediente resolveu ficar ali vendo as obras de arte e se perdeu do meu corpo. Eu não tocava o chão... Não mesmo. Entrei no metrô e fechei os olhos para ver se passava e nada. Fiz a primeira baldeação e então resolvi por na cabeça que sim, a noite já estava estragada e não tinha volta. Aquela náusea que leva a cabeça ao chão começou a bater. Eu não iria vomitar no metrô... Não seria agradável. Desci na estação Liberdade (olha só que nome controverso) e na escada rolante, simples assim, vomitei. Vomitei na blusa de frio que está de molho desde então. Somente nela. Fiquei bem por 5 minutos, enrolei a blusa com o vomito para que ninguém percebesse e desatinei a vomitar mais uma vez, agora na plataforma! Que loucura. Quem olhava pra mim não dizia que eu estava passando mal de tão discreta que sou. Procurei um banheiro e nada. Tive que pedir para um funcionário da estação me ajudar e ele, gentilmente, me levou até o banheiro dos funcionários, questionando toda hora se eu estava bem o suficiente para ir até minha casa, se eu queria ir para o hospital, se eu queria água... Não, obrigada. Estou bem, o que era mentira. 
Fui embora para meu mundo com uma garrafa de água na mão, fraca, passando mal. Fui embora com uma garrafa de água na mão, cantando alto sem me importar com ninguém. Fui embora cantando Gainsbourg e o seu Intoxicated Man. Era cômico... Ser saudável é uma questão muito relativa. 



Je bois, à trop forte dose! Je vois... Des éléphants roses.




2 comentários:

Nádia C. disse...

Se eu fosse fumar por causa da minha ansiedade já estaria condenada à morte! Adorei ;)

Fui a um pequeno sarau uma vez, é muito legal. Li um poema de Manoel de Barros, conhece?

Nádia C. disse...

tenho muita inveja de quem consegue escrever prosa :( hehe