domingo, 3 de março de 2013

O seu avesso

Eu gosto de você às avessas, quando me quero inteira,
calada por não saber ocultar a mentira que tropeça na gente.
Eu te consumo por desejo, talvez gula, não importa -- te consumo quando me quero inteira.
Já não basta me medir com os teus sorrisos confusos, a tua questão insopitável
e os olhos carregados de pejo: é tudo visível, risível.
Para a minha aspérrima imaginação que te desenha tão sem contorno, isso pode ser contraditório, mas você se codifica em tantos outros para no fim eu continuar inteira.

Das tardes calorentas e vertiginosas só recordo do idílio.
Não sei como era o seu tatear, muito menos o repousar de suas mãos em seu colo.
Disso tudo só sei que o sensível machuca mais a mim do que a você.

Das tantas lembranças que não são minhas somente, há uma saudade lépida
um puxar de ar que me falta quando te desencontro no passar dos dias
e isso só acontece porque insisto no avesso, no papel dobrado, no bordado das fronhas que carrega nosso repouso, nas desavenças que me vencem.

Eu quero ser pela metade o que você desperta, mesmo correndo o risco de ser um menelau de terceira.

A solitude que me contempla deixa espaços largos entre as palavras e me tonteia com certo bafo etílico.
Tudo remete ao que eu acredito ser você pelo avesso quando me tenho por inteira,
originando o problema da fome quase silvícola do desconhecido.

Não se trata de compulsão, mas sim de necessidade ridiculamente afetiva,
e desconexa, praticamente extinta no que deve desabar em você, meu amor.

O impossível não existe à imaginação.
O impossível resiste fielmente à contradição.
Agora eu? Eu ando optando pelas hipóteses...

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