quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Manhã pálida

Despertei cautelosamente, evitando todo e qualquer rangido da velha cama remendada.
Me olhei no espelho com a cara inchada e com novas feridas nos lábios.
Na cozinha dei o primeiro resmungo do dia: 


- Pra que deixar o café tão meloso, porra!


Decidi ir até a padaria tomar meu oxigênio. Esfreguei bem os olhos, forcei a vista e vi no relógio: 6:38h.
Padaria já estava aberta.


Coloquei uma calça, o tênis e a velha camisa. 
No caminho encontrei aquele rapaz com cara de Weezer, também estava com uma camisa larga. 
O cabelo e o óculos lhe deixavam com cara de estudante de jornalismo dos anos 90.
Sempre que nos vemos, a expressão dele me revela que a timidez não o deixa dar um fracassado oi.


No balcão da padaria pedi meu cardápio de sempre e fiquei fantasiando o futuro do jovem policial que ali havia parado para fumar um cigarro. Era noivo, pela aliança.


Café tomado, voltei para casa.


A porta estava trancada, o habitante bipolar já tinha acordado. 
Abriu a porta e pediu para que eu a trancasse de novo.


Fui para meu quarto e liguei a teledesgraça.
As mesmas notícias matinais, previsão errada do tempo e reportagens inúteis sobre conserva de feijão.
Desliguei e peguei o livro queridinho para continuar a leitura. Página 69, penúltimo parágrafo:


"Caminhei oito quilômetros pela Colfax até minha confortável cama no apartamento. Major teve de me deixar entrar. Eu me perguntava se, neste instante, Carlo e Dean estariam dialogando, de coração a coração. Mais tarde eu teria a resposta. As noites de Denver são amenas, dormi feito uma pedra."


Imediatamente lembrei de um amigo ao ler esse trecho. 
Engraçado, dá para encaixá-lo na narrativa e fazer do livro um filme imaginário. Perfeito.


Li até a parte 2 e me cansei. 
Fui até a janela, chovia.
Deitei na cama com um mal estar gigantesco no fígado, o que era de costume graças ao café.
Fechei os olhos e comecei a pensar e imaginar uma situação perfeita.
Do jeito que eu queria, com quem eu queria.
Isso sempre aliviava meu tédio e minha solidão.
O tempo costumava passar.
Virei de lado e liguei o rádio. De manhã tocam boas músicas.
Eu não estava com vontade de ouvir Led Zeppelin. 
Queria ouvir Beethoven.
Desliguei o rádio e virei para o outro lado.
Voltei a fechar os olhos, cantando "idler's dream" baixinho...
A introdução do meu sonho estava feita.


Adormeci.


moral da história: o café feito em casa é sempre mais forte do que o pronto da esquina.

Um comentário:

Nádia C. disse...

Gostei desse café! Se pôr acuçar estraga. Poque eu gosto é do amargo.