quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Desce mais

Voltando ao centro, Ivo viu que o café havia marcado as feridas da boca, deixando-as evidentes e com resquícios de amargura que fincava seus dentes sob elas, olhando atentamente os buracos e as burocracias que rondavam a cidade.
Já era noite e o barulho dos sapatos, quer dizer, dos passos de uma moça que andava apressada do outro lado da rua chamaram a atenção de Ivo. Talvez ela tivesse medo de que alguém a importunasse, algum alucinado que nunca tinha visto as panturrilhas de uma mulher sob saltos ou até mesmo o tiozinho da pipoca na esquina, não sei. Só sei que era visível o medo atrás daquele óculos quadrado, combinando com a camisa branca e os livros pressionados no colo. Discretamente ela levantou a cabeça, e de uma forma desprezível, olhou para Ivo como se ele fosse invisível... Como se fosse um átomo, somente. Ele sequer se importou e num ato de abandono, entrou na rua à esquerda, parando num bar vagabundo desses que o dono usa uma camisa azul, com os cabelos grisalhos e salgadinhos de isopor por todos os cantos, com garrafas de pinga pela metade e seus fãs espalhados pelo balcão.
Um outro barulho, dessa vez era um desses que começava baixinho e ia aumentando, começou a se aproximar e passou num flash. Um saco de ossos montado numa Harley Davidson, ou como diria o Serge, uma Harley David Son of a Bitch. Barulho de moto o irritava profundamente! Talvez fosse o som mais desgraçado que existia, pois ardia até os olhos! Parecia que penetrava em cada um dos seus neurônios anestesiados.
Não era um dia elegante, apesar do frio e do céu limpo com estrelas prestes a morrer. A situação pedia qualquer dose barata:


- Me vê uma maria-mole ai!


O dono grisalho colocou o que parecia ser duas doses, talvez uma de cortesia... Imaginou. Ou então errou na mão na hora de por uma bebida ou outra. Aquilo desceu numa viagem só, sem arranhar nem nada. Suavemente e apenas uma vez. 
Ficou por ali mais alguns minutos olhando para os pés e a ponta da bota, entre compreensão e carinhos na barba por fazer, até que se levantou, pagou o que devia e saiu em direção a lugar nenhum (isso na cabeça dele, porque a quitinete ficava na mesma rua).
Entrar e se entregar à moça do sonho ainda não era o momento... Era cedo demais e talvez ela nem iria aparecer por conta da traição do dia anterior. Ele não sabia. O lado negativo dela ainda não havia sido apresentado.

2 comentários:

Nádia C. disse...

"desses que o dono usa uma camisa azul" É desse jeito! E pra piorar deixam a camisa um pouco suada, aberta até a barriga sexy deles, mostrando os pelos do peito mais sensuais ainda, nossa. D: atenção para o detalhe da caneta 'presa' na orelha!

Nádia C. disse...

Eu sempre digo que se eu tivesse uma arma, eu já estaria sentenciada à prisão perpétua! E eu iria ser chamada de serial killer que motoristas de moto! que barulho mais irritante do caramba! ainda bem que não sou só eu que pensa assim D:

p.s. a parte de matar todo mundo não é tão verdade assim o.o