segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Judiação

Não nos víamos há muito tempo, o mesmo que levou nossos cabelos longos embora junto com os alter egos sessentistas e, assim que soube que ela estaria pelos cantos de cá, como numa oportunidade única, levantei a mão primeiro e pedi para que reservasse seu sábado para as nossas risadas e histórias, e ela aceitou. 
Saí de casa na intenção de beber algo, conversar, fumar uns dois cigarros e atualizar nossa amizade. Ela sempre soou como uma Gertrude Stein pra mim, apesar do único ano que separava nossas idades. Ela era adorável e de uma inteligência doce. Era quase impossível que alguém tão humano existisse ainda por essas terras e ao nos encontrarmos eu a abracei e me senti inundada de felicidade! Me senti aliviada. Era como se estivesse tudo simplesmente bem... O que nunca acontecia.
Ela estava acompanhada do namorado, ambos estudantes de filosofia, e eu sem noção nenhuma sugeri que descêssemos a street lost, acreditando que teria algum lugar aberto no início da noite, o que obviamente não aconteceu. Mas descemos e falamos muito. Em um determinado momento achei graça em um triste comentário dela... Achei graça porque parecia normal. Parecia um conformismo. 


- Agora eu tomo remédio controlado, tarja preta e tenho síndrome do pânico. Vem, vamos atravessar!


Aquela cena dela olhando para o lado e contando isso na maior tranquilidade do mundo, nos fez cair numa risada sem fim. Essa era a vida nos apresentando as consequências do passado que tínhamos vivido. Ela já não bebia mais por causa disso e de todos os nossos "amigos confortantes", ela tinha ficado apenas com o cigarro e eu também, quer dizer... A única diferença é que ela já tinha vivido muito mais do que eu, que estava apenas começando. O namorado dela só observava, não falava. Era quieto. 
Nós sempre nos enfiávamos escondidas em qualquer canto para desabafar sobre os nossos problemas emocionais. Ninguém podia ouvir, só a gente. As portas fechavam, os rostos viravam, as conversas alheias surgiam e ai nós aproveitávamos para soltar todas as coisas presas no coração, porque nós nos entendíamos. Ela sabia como eu me sentia em relação a tal coisa e eu a entendia da mesma forma e ríamos muito, minha nossa...
A street lost não estava tão atrativa como de costume, o bar estava vazio, o moço da casa de discos estava viajando e a loja de chapéus estava fechada e então, resolvemos ir para a república onde ela morava. A princípio acreditei que era perto, porque o metrô te dá essa sensação de que não existem lugares distantes, o que é pura ilusão. Lembro-me que no retorno para a casa, vi uma placa indicando "Belo Horizonte" logo a direita. Eu estava longe sim. Mas ainda não.
Chegando lá me bateu um arrependimento enorme por ter iniciado minha vida de modern times tão cedo. Eu poderia me dedicar somente aos estudos, por que não? Enfim, isso foi passageiro e logo tratei de pegar vários livros emprestados. Ficamos ali, sentadas no sofá até de madrugada, lendo poemas e ouvindo músicas,  discutindo sobre Camus, no caso ela e o namorado porque a minha ignorância era tremenda que até então eu não o conhecia. Tínhamos que acordar cedo e eu sentia a ansiedade dando socos no meu estômago frequentemente. Talvez eu não deveria ter tomado café. Acendi mais um cigarro. 


- Sabia que o seu sobrenome significa "medíocre"?
- Então eu sou uma medíocre ousada. 
- Ousada medíocre soa melhor. 
- É verdade. 


O namorado dela tinha um humor um tanto agradável, de verdade. Era do tipo que não desperdiçava as palavras falando qualquer bosta, ao contrário de mim. Tudo que eu tentava falar, não conseguia explicar... sempre terminava com um "não sei". Decidimos que iríamos dormir e ponto. Mas como? 5 gotas de rivotril, uma língua dormente, joelhos querendo dobrar e ok... Vamos dormir. O namorado fora para o quarto ao lado e eu e a pequena flor fomos para um outro. Ela em uma cama e eu na outra. Apagamos a luz e por um minuto eu pensei que iria dormir feito pedra por conta do remédio e nada... Começamos a falar mais e mais. Éramos tagarelas. Muito. Só falávamos das judiações que a vida nos causara ao longo do tempo, das dores, das saudades, dos amores... Tudo terminava com uma risada, mesmo eu achando que ela iria começar a chorar a qualquer instante. A luz só acendeu uma vez, para ela me mostrar como seria ela encontrando um filha da puta qualquer... E lá estava eu, rindo mais uma vez. Um zumbi. Meu corpo dormia e eu não. 


- Será que ele deixou o cigarro ai?
- Acho que não... ele nunca deixa. Ou talvez tenha deixado sim! 
- Então vamos pra janela de novo! 
- Vem! Ele deixou aqui! 


E lá fomos nós de novo. Correndo, saltitantes, felizes e podres. Estragadas, eu diria. Sentadas na mesa, eu a olhava e acompanhava os seus olhos contando a história da viagem cancelada. Era triste... Mesmo ela detalhando tudo, inclusive o que não deveria, eu achava triste. Enxergava um vazio tremendo naquilo tudo e me identificava, pois eu vivia a mesma coisa. Era quase 4h da manhã. Ok, tentamos dormir de novo.
No quarto escuro, e depois de mais algumas gotinhas da baunilha de tarja preta, nós continuamos a falar. E muito, num desespero enorme. Qualquer um que ouvisse a conversa certamente iria nos rotular de neuróticas. Duas malucas. Eu preferia ouvir os desabafos dela do que enchê-la com os meus, até que em um deles, ela chorou. No escuro, a voz alta, o desejo de gritar, a loucura, a frustração... Tudo reduziu-se a uma voz miúda que chorava em uma frase só. Eu quis chorar também, mas meus olhos não me respondiam mais. Engoli seco porque não sabia como confortá-la e compartilhei com ela a minha dor. 


- Se você por os pés no chão, vai ser pior. Eu acho que é melhor alimentar o que não existe, do que provar por alguns minutos a verdade... e ela é tão amarga, tão cruel. Te enlouqueceria mais ainda... 


O silêncio se fez. Ela virou-se de lado e eu também. Consegui dormir por uma hora achando que já era de manhã, mas o céu denunciava a madrugada ainda e junto disso vieram os socos no estômago de novo. A visão que eu tinha da cama era a mesma visão do meu quarto. Isso me confortava, mas alguma coisa não me deixava em paz. Devo ter tirado pelo menos uns 6 cochilos de 15 minutos, até que levantei e fui para a janela mais uma vez me cobrir com fumaça. Eram 24 horas, um maço, um litro de café, e quase 10 gotas de baunilha. Não... eu não era um zumbi. Eu deveria estar sonhando. Sentei no sofá pra ver se alguma coisa melhorava e nada. Voltei para cama e cochilei mais alguns minutos e eis que o despertador toca. Ela senta na cama, dá risada, eu olho pra ela, retribuo a risada e... 


- Acho que a gente podia dormir até às 9h...
- Eu também acho.


Mentira. Nós apenas fechamos os olhos. Éramos zumbis. Em meio ao banho, ao rosto lavado e ao dia lindo que fazia, o namorado dela compro alguns pães de queijo enquanto ela fazia café... Eu não conseguia levantar da poltrona. O sofá simplesmente flutuava. Definitivamente, era algo como "i'm not there". 
Minha alma ficou por lá, sentada na poltrona e rodando com uma almofada no colo. Meu corpo entrou no ônibus com destino a realidade paulista. 


4 comentários:

Nathalia Colli. disse...

A arte de traduzir em palavras todo o sentimento. É um belo texto, obrigada por ele. A genialidade deste texto não se dá apenas pelo bom uso do português, ou então pela escolha de belas palavras, mas principalmente por vivermos a nossa bela juventude em um lugar cinza, mesmo nos dias azuis, e ainda sim sonhar com flores, mar, sol e presenças... Só nos sabemos o que é estar aqui, mas somente Ser em outro lugar! Te amo, amiga.

Fernanda M. disse...

<3

Nádia C. disse...

e você mentindo pra mim, dizendo que estava só 'tentando' escrever! Ah, você sabe que já escreve né?

Nádia C. disse...

ai, menina, parece que tudo flui na sua mão!